Jô di Souza 

Escritor e músico.

 Cheguei aqui depois de um tempo e tanto de caminhada. Estradas de chão, de asfalto, de ferro... Coisas que  vi e experimentei, tanto quanto as coisas que sonhei e imaginei, fazem com que eu pense, afinal: onde vai dar tudo isso?

O bom é que podemos ir juntos, pouco preocupados com o que  seja real, ou não; tão somente porque tudo é como é!

IMG-20160619-WA0027.jpg
Foto_lançamento_dalaude.jpg

De onde eu vim...

a estrada era de chão, poeira farta nas narinas, no cabelo; e lama nos pés, nos dias de chuva. Mas era tudo muito belo, porque era natural, havia borboletas de dia e pirilampos à noite. E estrelas. E anjos. E fadas. E vastos gramados por onde correr livremente!

A riqueza estava dentro de mim, ainda que minha casa fosse de sapê e telhas de barro cozido, com portas fechadas precariamente por tramelas, e banheiro no meio do quintal. Olha que nem estávamos tão longe assim da capital, com seus mármores, suas mansões e carrões, com suas intrigas políticas e gente sumida nos abatedouros do regime. Eu nasci na Baixada Fluminense, numa cidade com nome de militar, bairro com nome de poeta e rua com nome de filósofo francês. Bem podia ter me tornado um revolucionário. Felizmente,  aprendi desde cedo que a única revolução válida já teria se dado havia quase dois mil anos. E que os contrarrevolucionários haviam quedado humilhados diante de um madeiro infame, no qual

a Verdadeira Luz se acendia para o Mundo.

Não precisávamos de armas, mas de livros!

Restava-me viver com abundância. Então ousei.

Filho de operário e senhora do lar, ambos sem nenhuma instrução, ensinaram-me, contudo, o valor das letras e do trabalho.

Sem conhecerem tantas palavras escritas, minha madrinha e minha mãe me deram, em momentos distintos, dicionários, vejam vocês! E com que encantamento recebi tais presentes!

Desde então tenho escrito e reescrito. Leio, releio, e escrevo de novo; quantas vezes bastarem, porque a língua escrita é uma pedra bruta, enquanto a pena e o papel são martelo e cinzel com os quais o escritor vai lapidando o texto até que seja publicado. Para mim, o computador é só um lápis moderno.  O bom é que há muitas histórias a serem contadas, ainda! Viagens de automóvel, de ônibus, a cavalo; ou, em rotas aéreas, a bordo de um jato, galopando um vistoso corcel-alado, ou, quiçá, equilibrando-se sobre um tapete voador...

Mas se o prazer é uma pepita a ser garimpada nos leitos da nossa imaginação,  o tal caminho, por sua vez, só nos revelará o que há além da curva se nos dispusermos a caminhar...

Querem vir comigo nessa viagem?

Venham!

Entre em contato
Entre em contato
 
Foto_lan%2525252525C3%252525252583%2525252525C2%2525252525A7amento_dalaude_edited_edited_edited_edit

Quem sou

Minha história

Escrevo desde menino. Acho que comecei numa tarefa em sala de aula, por volta dos 9 ou 10 anos de idade. O tema era "O Trabalho" e eu me baseei sobre o que ouvia em casa, do meu pai, sobre o orgulho de ser um trabalhador. A professora fez com que a turma aplaudisse a minha redação, deixando em mim um certo convencimento de que aquilo era algo que eu podia fazer bem feito. 

Lá pelos 12 ou 13 anos, a leitura de um livro da antiga série "Vaga Lume", que eu ganhara de amigo oculto, "A Ilha Perdida", de Maria José Dupré, faria a minha cabeça para sempre. Até então, os livros eram apenas os meus melhores brinquedos, concorrendo com a bola e o violão. Depois da leitura daquele romance infanto-juvenil, no entanto, ter de sair da fantasia  para a realidade tosca que o mundo me propunha iria doer demais!  

O jeito era tentar escrever meus próprios enredos e fugir à realidade que se impunha.  Enquanto isso não tomava forma, fazia redações para os colegas, redigia os trabalhos escolares das menininhas, e ia por aí, codificando a vida em letras. 

Mas o primeiro romance, mesmo, só veio lá pelos 26 anos de idade: "O Bufão", que contava a saga de João d'Alaúde, um fictício menestrel do século XIII. Por que essa época?... Não sei...

Apesar de ter recebido elogios honrosos quanto à forma, nenhuma editora quis apostar no tema e o livro voltou para a gaveta,  enquanto eu escreveria e reescreveria essa e outras obras.

Anos e anos depois, começava no Brasil uma imensa (mais uma) turbulência política, quando eu me lembrei de João d'Alaúde. Desta vez, R$ 0,20 (vinte centavos de Real) teriam sido o estopim que inflamou  a meninada nas rua, exigindo mudanças. Bem, não me cabe  entrar no mérito das reivindicações, apenas me encanto quanto aos arroubos daquelas turbas juvenis. Só os jovens podem mudar o mundo, eu sabia. Já tinha me dado conta de que a Cruzada dos Meninos, um fato histórico pouco conhecido e ocorrido na Europa, completava 800 anos do acontecido. Eu não podia ficar parado; tinha que fazer a minha parte. E a única coisa que eu podia fazer era traduzir para o papel os meus sentimentos quanto àquilo tudo.

Então, voltei a  "O Bufão" como uma homenagem àqueles garotos que apanhavam das autoridades, do lado de fora do estádio, em Brasília, enquanto, lá dentro, a Seleção Brasileira de Futebol fazia seu primeiro jogo num torneio internacional pré-copa.

Será que poderia haver outras revoluções válidas? E o que se poderia encontrar em comum entre os jovens que apanharam das milícias do Rei Felipe Augusto, em 1212, e as que apanhavam da polícia naquela fatídica  tarde de 2012, na capital do Brasil? 

Pois bem, escrevi de um fôlego só as reminiscências de João d'Alaúde, enquanto o pau continuou cantando pelo país afora. Em algumas semanas, aquilo que era só mencionado no texto original de "O Bufão", as lembranças do menestrel João d'Alaúde, isto é, as lembranças de seus tempos de menino, dos incidentes que o fizeram se engajar na lendária Cruzada etc, bem como as próprias desventuras de tal empreitada "bélica", haviam se tornado João d'Alaúde e a Cruzada dos Jovens, que saiu, em 2014, pela Editora Giostri.

Então,  lembrei-me do meu pai contando uma piada dos tempos da ditadura, de que determinado indivíduo fora apanhado arbitrariamente na rua pela polícia e levado a uma delegacia - "para averiguação", como eles diziam. De frente para o delegado, o infeliz não tinha documentos que pudessem comprovar um trabalho válido; logo poderia ser enquadrado no crime de "vadiagem". Para se livrar de tal acusação, o detido argumentou com a autoridade policial que não era vadio, pois era inventor...

- Ah, o senhor é inventor! - o delegado teria se admirado, perguntando em seguida. - E o que o senhor já inventou?

- Por enquanto, nada...

Não sei se o delegado riu ou se mandou o pobre homem para o xilindró; ou as duas coisas. Apenas lembro a história porque, depois de décadas de elogios e sonhos, foi só quando vi impresso meu primeiro livro  que pude dizer, com bom orgulho, pra mim mesmo: Bem, agora eu sou escritor! 

 
 

A Mulher no Espelho

Poema de Vicente Portella

Este é um belíssimo texto do poeta e escritor Vicente Portella ao qual musiquei, quando ainda pensava em Ciclo de Espadas para o teatro. A canção cai como uma luva na cena em que Viera Ruiva, nua diante do espelho, é flagrada pelo marido, inebriado de ciúme, em ato solitário e cheia de esperanças numa reconciliação. 

Música de Jô di Souza

Guitarras: Zunga Ezzaet

Baixo: Ary Menezes

Teclados: Paulo Malária

Bateria: Mário Costa

Voz e Violão: Jô di Souza

A-mulher-no-espelhoArtist Name
00:00 / 03:30
 
 
Buscar